
Fazia um tempo que ela não dava a ele o ar de sua graça. O trabalho, o cachorro, a casa e as infindas preparações para as festas a faziam entrar num ritmo tão acelerado, que ela mesma já nem mais o olhava como era de costume em tempos mais remotos. Mas a rotina, por ela mesma, depois de um tempo...repetitiva...dia-a-dia...no cansaço, a fez parar. O interessante é que ela gostava da rotina que tinha. O trabalho, a família, o cachorro, a sua casa...Ah! Ela adorava estar em casa! Gostava de cada detalhe. Cada peça, móvel, xícara, flor...escolhida a dois.
Mas, inesperadamente, o que não fazia parte da rotina aconteceu. Ela parou. Em frente a ele, correndo os olhos pelo seu próprio corpo, todo o contorno, lentamente. As imagens do espelho a impressionavam. A casca já não era como antes. Notou traços mais firmes e viu que eles não estavam apenas em seu rosto, mas se expandiam por tudo, numa corrente que ia da mente ao coração. Viu também que alguns novos sinais surgiram no tempo em que a vida lhe tragava o fôlego. A princípio entriteceu-se, retorcia-se por dentro reconhecendo em si que o vigor estava mudando. Daquele momento em diante precisaria dar mais atenção a si mesmo. Suas formas estavam mais arredondadas e seu semblante murchou. Ficou assim por um tempo, mas resolveu tomar posse de tudo o que via, de tudo o que o corpo em silêncio lhe dizia, reconheceu que estava tão ou mais radiante do que os raios de sol que entravam pelo canto da cortina branca.
Tudo porque parou. Durante a pausa, sentiu os pés no chão e essa sensação a fez entender, que a descoberta lhe trazia mais do que uma primeira impressão, a vida agora lhe mostrava claramente que o tempo dela havia chegado, que as marcas que o espelho acusava vieram por todos os momentos vividos. Olhou no fundo dos próprios olhos e encontrou uma riqueza sem tamanho. As primeiras rugas trouxeram o amor, a certeza e também muitas dúvidas que aos poucos iam sendo esclarecidas. Sentia o gosto de ser quem era, de gostar do que fazia e de amar desesperadamente cada pedacinho da sua rotina, das pessoas, de tudo o que realemente importava.
O cheiro do ar, a brisa do vento, o gosto da água estavam todos, deliciosamente saborosos a partir daquela pequena pausa. No espelho, viu muito mais do que uma casca que passava de verde a madura e encontrou beleza no que viu. A beleza de viver a sua própria vida, de ter as suas pequenas marcas e ver que ainda havia lugar para muitas outras que haveriam de vir. E nesta incrível descoberta, sorriu. Aprendeu com o espelho, numa pequena pausa, a arte de reconhecer a si mesmo, dando a ela mesma o ar de sua graça.
Isa Cardoso.

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