
NÃO! Ela se contorcia por dentro, mas não queria acreditar. Os olhos viam com clareza, os versos e as rimas e ela preferia não entender. Mas não podia fechar os olhos para algo tão claro. Os poemas não eram para ela. As fotos não eram dela. Estava visível. Ele não tinha por ela o mesmo desejo. E sem o desejo o amor vai morrendo. Se tinha fez tudo de um jeito tão natural, que era como se não houvesse mais nem uma gota de nada.
Ela pelo contrário. Tremeu das pontas dos pés até as lágrimas que escorreram espontaneamente pela face porque o amava como nunca havia amado ninguém. Era uma daquelas meninas carentes. Carência típica da ausência da figura masculina durante a infância e adolescência. Viu a mãe chorar muito por causa do pai que saia pra tocar viola na madrugada acompanhado de duas ou três raparigas numa só noitada. Viu também a mãe criar coragem e dar um basta nas orgias do pai.
Um certo dia, saíram as três com as malas na mão, ela, a mãe e a irmãzinha pequena, de quem ela cuidava com muito carinho. Sentia-se responsável pela irmã. A mãe saia pra trabalhar antes do sol sair e só voltava a noite. Poucas horas de carinho de mãe, mas carinho de qualidade. A mãe, mulher de coragem, trabalhadora, criou as duas filhas para serem mulheres independentes, fortes, de luta. Assim como ela era e se orgulhava de dizer e bater no peito "nunca precisei de homem pra nada. Sempre fiz de tudo um tanto". Mas nada supria a falta que o pai lhe fazia.
A menina cresceu e foi se transformando numa bela mulherinha. Na juventude, por ingenuidade ou por carência mesmo, não enxergava a belezura que era. Era inteligente, esperta, bela por dentro e por fora, daquelas moças difíceis de não se encantar. Mas nada disso ela via. Era como um patinho feio encolhido no meio da multidão. Assim se sentia. Mendigava carinhos de amores ilusórios que lhe prometiam mundos e fundos e nada nunca lhe cumpriam.
Por tudo o que viveu no seu pouco tempo de existência, não acreditava nunca que poderia ser amada por alguém. Nem acreditava que ia amar. Com uma lista recheada de amores vãos, encontrou não se sabe porque, nas peças que a vida nos prega, por acaso ou não, um poeta que lhe fez suspirar, que lhe fez acreditar que ela merecia todo o amor do mundo. Sentiu-se mulher, corajosa, bela, em esplendor e beleza.
Todos os versos e rimas eram exclusivamente para ela. E isso a fez descobrir um sentimento que nunca imaginou sentir antes. Sim! Esse mesmo!Uma paz acompanhada de euforia e malícia, sinceridade, confiança, segurança, carinho. Eram tantas sensações vividas num só instante, que ela mesma se confundia de pensar que nunca na vida queria sentir outra coisa.
Depois de exatos 14 meses de versos e rimas, flores, corações, desenhos nas calçadas, selou com o poeta a sua vida, colocando no dedo a aliança que lhe renderia dias eternos de amor. E os dias eram felizes sempre, mesmo quando haviam versos de tristeza e dor. Logo passava. O sentimento sublime que ela acreditava sentirem um pelo outro superava tudo. Nada se fazia obstáculo diante de tanto amor.
Mas a vida, fez ao mesmo tempo, muitos versos de dor e isso mexeu com o coração da Moça. E por força do destino, por curiosidade ou por certificação, começou a procurar. E a intuição não negava. Era como a mãe dizia "Quem procura acha" E ela como sabia no fundo do íntimo, achou.
Achou o que não queria nunca ter achado. Preferia mil vezes um chicote nas costas que lhe tirasse o sangue do que versos e rimas que não se endereçavam a ela. Os versos mostravam que no coração do poeta tinha espaço demais. Pra ela e pra muitas outras senhorinhas, raparigas, enfim...pra muitas outras que ainda quisessem ali habitar. E isso logo com ela que passou tão recentemente a acreditar no amor. Ele a ensinou que era necessário acreditar. Que sem o amor nada fazia sentido.
Mas ele a fez acreditar num único amor. Um amor onde dois são um e onde o desejo se endereça apenas de um pro outro e de outro pra um. Naquele momento, castelos de sonhos desmoronaram e ela enxergou com os olhos da mágoa e da tristeza. Sentiu que um pequenino pedaço do que por ele sentia se quebrou. E que apesar de ser pequeno o pedaço que se foi. Vai fazer uma falta imensa! Sentiu como nos dias onde era o patinho feio encolhido no meio da multidão. Como quando ela era a única menina da turma da escola com o rosto rosado cheio de espinhas, passando pelas coleguinhas todas com suas faces macias e esnobes, a olhando com desprezo.
Não! Não! Não!Nunca doeu tanto! Ela não parava de repetir a palavra diante dos versos. Estava ininterruptamente magoada, triste e sentindo- se um lixo. Sabia que depois daquilo o amor ia perdurar se fosse realmente o seu destino o mesmo destino do poeta, mas que pra isso teriam muito o que rever de vida, de sonhos, ilusões, sentimentos, verdades e mentiras.
E com a última lágrima que rolou de sua face lembrou de um verso do Leminsk que faria jus ao momento vivido e se perguntou: "AMOR, ENTÃO, TAMBÉM ACABA? NÃO QUE EU SAIBA. O QUE EU SEI É QUE SE TRANSFORMA NUMA MATÉRIA- PRIMA QUE A VIDA SE ENCARREGA DE TRANSFORMAR EM RAIVA OU EM RIMA...
...
Isa Cardoso.

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